Saturday, December 17, 2005



radioharekrishna.com
Facilitando Uma Conclusão Feliz
____________________________________________________________________________
VARNASHRAM
Por Hrdayananda Dasa Goswami
Junho de 1998 em São Paulo

Somos almas eternas, porém temos corpos, e Krishna deu um sistema no qual todos nós podemos “dar corda” para o corpo material dentro de uma área segura de atividade. Nos Estados Unidos tem um sistema para estradas de alta velocidade em regiões montanhosas, onde para um caminhão que está descendo um longo trecho em declive e perde o controle, existem rampas que vão para cima, o caminhão entra numa delas e pára. Pregando nos EUA, às vezes eu digo que o sistema de varnashram é como aquele sistema de rampas, ou seja, você tem um corpo que está em alta velocidade com propensões materiais e tem que achar a sua rampa para deixar o corpo correr, mas dentro de uma área segura. Isto é varnashram.

Agora também existe o perigo (como em tudo) de que o dever de cada um de nós, ou o dever que eu tenho ou vou ter segundo minha natureza e o corpo com que eu nasci – uma vez que este dever é criado sob medida para o meu corpo –, da tendência de nos identificarmos com este corpo e com este dever. Por exemplo, alguém que se identifica com seu corpo com muita vaidade, quando se veste com boas roupas, também se identifica com estas roupas que foram feitas sob medida para seu corpo; compra um carro e se identifica com esse carro. Então o corpo, a roupa e o carro juntos se tornam um pacote de falso ego. Dessa maneira, nós podemos nos identificar com o dever externo feito para o nosso corpo, tornando o corpo material junto ao seu dever num pacote de falso ego. Por exemplo, dentro do sistema de varnashram, entre os varnas, normalmente a posição mais elevada é considerada brahmana. Digo “normalmente” porque quando Krishna estava neste mundo, em Vrndavan, os devotos mais avançados, mais importantes e prestigiosos eram gopis, mulheres de uma comunidade vaisya. Mas numa sociedade que não é completamente absorta em consciência de Krishna, os brahmanas são considerados os mais importantes e por isso uma pessoa que nasceu com essa natureza, um devoto com natureza intelectual, de brahmana, pode ficar orgulhoso de seu corpo e aí o dever prescrito de brahmana, em vez de ser simplesmente uma maneira de ocupar o corpo no serviço a Krishna, se torna um tipo de etiqueta de prestígio com o “design” varna (como tem roupas com etiquetas!). Assim, em vez de utilizar nosso serviço de sannyasi, ou brahmana, ou ksatriya, ou grhasta ou qualquer coisa, esse dever se torna um tipo de falso ego. Existe este perigo

Por um lado nós temos que desenvolver o sistema de varnashram urgentemente porque todo mundo está precisando de atividades sob medida, completamente apropriadas segundo as naturezas; e, ao mesmo tempo, nós não podemos simplesmente supor que automaticamente todos vão ser conscientes de Krishna. Temos que ser muito cautelosos em manter a parte essencial da consciência de Krishna. Por exemplo, para um devoto que trabalha como vendedor de panelas de alumínio é difícil ele se identificar com tal trabalho. Mas, quando nós criamos um sistema védico, um sistema dado por Krishna, existe até mais tentação de se identificar com o trabalho por ser védico e assim manter um apego ao corpo material através de uma identificação com um sistema chamado védico. É para nos avisar, alertar e encorajar a não cair nessa armadilha, que Caitanya Mahaprabhu pessoalmente disse que não sou “nem brahmana, ksatriya, vaisya, sudra nem sannyasi, vanaprasta, grhasta ou brahmacari”. Como Prabhupada dizia, “O que alguém será se não é nada disso? Para responder Caitanya afirma que Ele é ‘gopi barthur pada kamalayor dasa dasa anudasa’, servo do servo do servo dos pés de lótus do amo das gopis”.

Atualmente as boas notícias na Iskcon são que, depois de um tempo amadurecendo estamos entendendo cada vez mais a vontade de Srila Prabhupada, o que ele realmente queria dizer na sua última tentativa de voltar aos Estados Unidos. Prabhupada estava em Vrndavan em 1977, muito doente, pouco tempo antes de deixar este mundo (talvez um mês), e um dia ele ficou muito inspirado como os devotos que estavam com ele me contaram. Ele falava que queria voltar uma última vez para os Estados Unidos porque ele só tinha completado a metade de sua missão. Metade que para nós era tudo, porque nós éramos jovens e quase todo o mundo vivia nos templos. Mas essa vida no templo, fazer sankirtan, adorar a Deidade, fazer serviço, o que para nós era vida espiritual completa nesse momento, Srila Prabhupada dizia que era só a metade de sua missão. A outra metade era varnashram. Ele tinha observado que muitas pessoas se aproximam, entram nesse movimento, mas não conseguem, como sabemos, passar a vida toda dentro de um ashram, um templo. Assim, Srila Prabhupada queria completar a outra metade criando facilidades, uma sociedade completa no sentido pleno da palavra, onde todo mundo pudesse ser incluído e encontrar um espaço confortável dentro de sua missão.

Um ponto interessante aqui é que, às vezes chegam pessoas que se candidatam para ser acaryas dos vaisnavas do mundo dizendo o que Srila Prabhupada queria fazer. Às vezes falam de rasas íntimas com Krishna como o que Prabhupada iria fazer agora, mas na realidade Srila Prabhupada anunciou o que ele teria feito – ele não queria enfocar temas tão íntimos. Tem quem prega que quem obedece Prabhupada, não obedece, e que quem não obedece, obedece – é realmente uma maravilha o que pode ser feito com palavras! Mas quem obedece realmente Srila Prabhupada seguindo o que ele disse, estão avançando, percebendo cada vez mais o relacionamento com Krishna, pois isto não é um problema, mas é natural e automático pela misericórdia de Srila Prabhupada. Ele não estava preocupado com devotos fiéis, estritos e sérios porque Krishna no coração está fazendo tudo e tudo está escrito nos seus livros. A preocupação de Srila Prabhupada revela muito bem seu caráter: era os 99,9 % das pessoas na Terra que não estavam recebendo a misericórdia do Senhor Caitanya. E por isso Prabhupada explicou claramente o que ele teria feito – teria completado a sua missão criando uma sociedade completa, védica, vaisnava, varnashram, para incluir todo mundo, assim como Sri Caitanya Mahaprabhu e Adwaita Acarya se preocupavam em como salvar todo mundo. Pensando assim, para que todo mundo pudesse se sentir feliz e à vontade dentro da missão de Caitanya Mahaprabhu, Prabhupada decidiu voltar aos EUA. Num tipo de transe extático ele passou a lembrar os primeiros dias da Iskcon, do movimento Hare Krishna, aquela história tão comovente de como chegou a Nova Yorque e tudo mais. Começou a chorar e chorar dizendo “Vocês, meus filhos e filhas americanos que fizeram tudo para mim!”. Nesse momento, em 77, os discípulos de Srila Prabhupada, em geral dos Estados Unidos, tinham ido a todas as partes do mundo para abrir centros: América do Sul, Canadá, Europa, a própria Índia, Japão. Então Srila Prabhupada chorava e chorava dizendo que queria voltar lá por estar tão agradecido. Claro que todos os devotos americanos pensavam exatamente o contrário – Prabhupada tinha dado e feito tudo por nós, apesar de nossas desqualificações! Ainda assim houve um momento muito comovente em que ele chorava e lembrava com gratidão devido ao seu próprio êxtase transcendental, e queria voltar lá para terminar sua missão.

Agora, quase vinte e um anos depois desse momento, estamos entendendo cada vez melhor essa tarefa, esse dever sagrado de que nós temos que completar a missão de Srila Prabhupada, sem mudá-la. Porque duas coisas são muito fáceis: simplesmente abrir as portas sem nenhum controle de qualidade (como se diz no mundo industrial), sem nos preocuparmos se estamos ou não seguindo Prabhupada, que tudo vale, tudo bem – isto é fácil porque não requer inteligência nem nada, permite-se tudo. A outra coisa fácil é excluir tudo e ficar com aquela coisa pequena, elitista, o que não requer muita inteligência também. Então, elitismo e algo sem critério não são difíceis. O que requer consciência de Krishna, inteligência espiritual, devoção, é abrir a Iskcon cada vez mais sem mudá-la, manter a mesma qualidade espiritual e ao mesmo tempo expandir.

Para dar uma prova simples no Srimad-Bhagavatam de que não é fácil encontrar o equilíbrio, vejam o caso de Vyasadeva. No primeiro canto do Bhagavatam, Vyasadeva ficou triste, insatisfeito, e seu mestre espiritual, Narada Muni, veio até ele e disse: “Você está insatisfeito porque abriu demais, produziu escrituras que dão tanta facilidade para varnashram que a consciência de Krishna perdeu-se”. Aí Narada instruiu Vyasa e ele escreveu o Srimad-Bhagavatam. Eu dou esse exemplo apenas para mostrar que mesmo Vyasadeva, encarnação literária de Krishna, teve que lutar com esse problema de “abrir” sem “mudar”. E por isso, como Bhaktivinoda Thakur diretamente disse: “A pior coisa nesse mundo são os críticos estúpidos”. E em kali yuga há abundância deles. Eu vejo que para encontrar a fórmula precisa para abrir a Iskcon ao máximo sem mudá-la, isto requer inteligência e maturidade. Mas graças a Srila Prabhupada acho que estamos chegando a esse ponto e todos vocês deverão participar.

Todos nós temos que ficar muito satisfeitos em consciência de Krishna, encontrar a maneira de progredir em consciência de Krishna, ninguém deve ficar estacionado. A cultura védica é tão boa como Krishna diz no 12O capítulo do Bhagavad-gita: “Você deve simplesmente dar todo o seu amor a Mim. Se Você não puder fazer isso, siga todos os princípios reguladores. E se ainda não puder fazer isso, então trabalhe para Mim”. Assim, todo mundo deve ser honesto consigo mesmo, avaliar sua posição espiritual, onde estou, onde não estou, onde eu quero estar e como posso chegar lá. Se você não sabe o caminho, então compre um mapa, no sentido de consultar os livros de Srila Prabhupada e os devotos avançados. Todos devemos saber exatamente onde estamos agora e decidir definitivamente sermos devotos puros de Krishna, queremos conhecer Krishna e voltar à nossa posição eterna, constitucional.
E como eu posso chegar lá, como posso progredir? Não importa onde você está agora, mas que você pode progredir, pode dar ao menos um passo em direção a Krishna – Ele vai dar muitos passos em direção a você. E o processo é de consultar, de procurar associação. E nós, eu posso dizer, somos seguidores de Srila Prabhupada. Eu, por exemplo, peguei o serviço de mestres espiritual, de alguma maneira Prabhupada queria que eu fizesse esse serviço. Mas também posso dizer que eu sou simplesmente um representante de alguém muito melhor que eu. O meu serviço é o de unicamente re-pre-sen-tar o verdadeiro salvador de todos nós. Prabhupada explica no sexto capítulo do Néctar da Devoção, Bhakti Rasamrta Sindhu, que um vaisnava segue os passos, o caminho dos grandes acaryas, sob a guia de um mestre espiritual autêntico – isto nós temos que lembrar! Quem se diz guru autêntico não tem nem capacidade e, muito menos, direito de abrir um caminho dele. Não existe um caminho que eu possa abrir. Prabhupada e os grandes acaryas abrem caminho, o nosso dever é simplesmente seguir nesse caminho. Agora, quem já tem um pouco de experiência, conhece bem o caminho, pode também guiar outros. Mas o caminho é feito por Srila Prabhupada. Senão, qual será o significado das palavras fundador-acarya? Nós não devemos ridicularizar por nossas ações e palavras a posição de Srila Prabhupada. O dever de um mestre espiritual é simplesmente o de repetir as palavras de Srila Prabhupada. Como ele disse na introdução do Sri Isopanisad: “Em círculos védicos, se alguém está dando um argumento, outro pode perguntar – ‘É mandato védico que eu tenha que seguir você?’” Por isso um mestre espiritual na missão de Prabhupada será quem pode re-pre-sen-tar Prabhupada sem mudar, sem criar algo novo.

Uma vez um devoto falou para Prabhupada que ele queria pesquisar algo. Prabhupada disse: “Pesquisar? Tudo já foi pesquisado!” Temos Bhagavad-gita, Srimad-Bhagavatam – tudo já foi pesquisado!”. Por isso todos nós devemos aprender a arte de representar Srila Prabhupada. Quando vamos à rua, numa loja, na lavanderia, num posto de gasolina, em qualquer lugar, você deve ir lá pensando que está representando Srila Prabhupada. Qual foi a última vez que levamos por exemplo, os livros de Srila Prabhupada para o posto de gasolina, para as pessoas que trabalham lá? Ou a qualquer lugar? Nós não devemos perder esse fogo, essa alegria de dar Krishna para os outros. Devemos ter esse espírito, pois a quantidade que nós damos é a quantidade que vamos receber. Se não queremos ficar estacionados e com aquela frustração, aquela insatisfação no coração de não sentir um progresso real na vida espiritual, ou seja, se você está querendo receber mais misericórdia, você tem que dar mais misericórdia. Isto é completamente independente do varna, do ashram, de onde você mora, do que você faz ou não faz. Cada um pode dar mais e, se o faz, recebe mais. É por isso que se nós não estamos satisfeitos, significa que Krishna não está satisfeito conosco – somos partes integrantes de Krishna. Você pode medir! Prabhupada disse que temos uma ciência espiritual e você pode cientificamente medir quanta alegria está dando a Krishna, quanta satisfação você está dando a Krishna, medindo sua própria alegria, sua própria satisfação. Se você quer mais alegria, dê mais alegria. Se você quer mais satisfação, dê mais satisfação. É muito simples, é completamente independente. Não importa sua educação, sua idade, o que você fez ou não fez, todos podem sair desta sala e dar Krishna para alguém. Isto é completamente independente de qualquer fator material, apenas dependente da nossa vontade de dar alegria a Krishna dando a consciência de Krishna para as entidades condicionadas. Acho que está na hora de uma revolução espiritual. E por que não agora?

Pergunta: Quais os próximos passos que a sociedade Iskcon tomará para implantar varnashram? Existe um plano?

Resposta: Sim. E como diz o ditado nos EUA, o diabo está nos detalhes. Mas, primeiramente, como falávamos em Nova Gokula, nós temos que compreender o significado da palavra sociedade quando nos referimos à Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna. Um sintoma de uma forma de pensar que já se tornou ultrapassada, é a idéia de devotos “internos” e “externos”. Porque se nós podemos compartilhar a visão de Srila Prabhupada, compreendemos que qualquer devoto que está dentro da Iskcon é devoto interno. Os externos são os que não são membros da Iskcon. Os templos são sempre a base espiritual, todos nós vamos aos templos, prestamos reverências para as Deidades, admiramos os devotos que estão lá servindo, porém a Iskcon é simplesmente uma sociedade na qual existem templos. Para mim os termos “interno” e “externo” revelam um modo de pensar que desenvolveu-se naturalmente, mas que agora é anacrônico. Dando aulas em vários lugares, mostrei o exemplo de que, assim como existem um corpo físico que cresce com um certo ritmo e uma alma que num corpo infantil se comporta de certa maneira, à medida que o corpo cresce, este e o comportamento vão amadurecendo. Desta maneira acho que devemos reconhecer que o corpo social da Iskcon é ainda muito jovem. Há vinte anos atrás, por exemplo, quase todos os membros da Iskcon do Brasil moravam nos templos. Então era natural falar assim porque quase todo o mundo morava nas mesmas casas e o movimento era muito jovem, um corpo social de infante que agora está crescendo, amadurecendo. Nós temos que compreender que Prabhupada queria uma sociedade na qual todo mundo fosse um membro interno, ninguém seria uma pessoa externa. E por isso nós temos que inspirar os membros da Iskcon que não moram nos templos, porque são exatamente eles que deveriam até dar uma certa liderança para o movimento. Entendemos que os assim chamados “devotos externos” são também membros internos da Iskcon com a capacidade de fazer um programa como este aqui (que não é externo, mas completamente interno nesta sala), porque este programa está dentro da potência interna de Krishna. Dizer que um programa é externo, ele seria externo a quê? Programas no templo são externos a este programa aqui.

Se nós podemos vislumbrar uma Iskcon unida, todo mundo está dentro da mesma sociedade, do mesmo sistema. Vejo que os próprios pais e mães, os devotos que estão trabalhando, eles têm que se organizar de uma forma positiva, nos consultando e criando programas. É interessante notar que nas religiões no mundo que estão crescendo mais rapidamente (como a Iskcon esteve antes), quase ninguém mora no templo. Morar no templo é uma coisa maravilhosa, porém as religiões que estão sendo mais prósperas, atraindo mais pessoas, muitas vezes nem têm membros que moram no templo. Então imaginemos o número e tipos de programas que podemos desenvolver para pregar! Tem religiões crescendo rapidamente, onde todos os livros, até milhões e milhões de livros, são distribuídos por pessoas assim chamadas “externas”, que moram nas suas casas, têm outros trabalhos e, no fim de semana, vão de casa em casa e vendem livros. Por isso nós temos que lembrar o que é uma cultura védica, uma sociedade védica completa já desenvolvida, para saber para onde vamos. E podemos observar numa cultura védica já desenvolvida que quem mora, digamos, num ashram que pertence diretamente às Deidades , são os brahmanas que cuidam das Deidades, que pregam, que organizam festivais religiosos e também os estudantes que estão aprendendo. Quando eu entrei no movimento, eu também fui estudante, pois estudava o Srimad-Bhagavatam, o Bhagavad-gita, fui treinado a obedecer (eu não entendia nada sobre obedecer, era um conceito completamente novo para mim!); e aprendi a servir, que eu era um servo. Então, os momentos que eu passei como brahmacari foram momentos de ouro, momentos gloriosos na minha vida. Porém, depois de certo tempo, eu saí para viajar e pregar. Todo mundo desenvolve sua carreira de alguma maneira. Podemos vislumbrar uma sociedade assim, entender que muitos dos devotos mais importantes, mais experientes e maduros na Iskcon, não moram dentro dos templos porque são devotos mais velhos que saíram para desenvolver suas carreiras segundo a cultura védica. Assim, todos esses devotos também têm capacidade de desenvolver programas, de salvar o mundo. Por isso eu penso que, se nós achamos que todos os novos programas têm que partir de um templo, então estamos perpetuando uma mentalidade anacrônica, ou que já teve seu tempo quando todos estavam no templo e não poderia partir de outro lugar. Os templos continuam sendo lugares ou centros espirituais de muita importância para todos nós, porém podemos criar milhares de programas também usando outros pólos espirituais dentro da Iskcon. E aproveitando a maturidade crescente, posso mencionar Srimatis Madhava-lila e Nrhari com seu restaurante. E muitos outros exemplos cada vez mais, como o Alimentos para a Vida, Ratha-Yatra, as fazendas – não existe nenhum limite para isto.

Prabhupada também associava varnashram com a produção de alimentos. Eu ouvi uma história de quando Prabhupada veio a primeira vez a New Vrindavan. Kirtanananda andava num tour com ele pela fazenda e Prabhupada perguntava uma e outra vez – “Mas os grhastas têm suas terras?” As Deidades também precisam de Suas terras, mas o modelo de uma fazenda que pertence à Iskcon com um presidente e milhares de devotos que trabalham lá, isto está bem, mas se for tudo o que temos isto não seria cultura védica. Podemos observar claramente na Índia que a Deidade tem Suas terras como deve ter, todo mundo compra ou tem suas terras em volta das terras das Deidades e existe uma comunidade védica.

Dentro da Iskcon existe um setor privado, porque tem muitos e muitos membros da Iskcon (agora quase maioria) que são membros fiéis dedicados a Prabhupada e que simplesmente têm sua vida privada dentro da sua consciência de Krishna. Privada não no sentido de fora da missão de Prabhupada, mas no de suas casas e terras não pertencerem legalmente à uma associação sem fins lucrativos de nome Iskcon. Minha experiência é que é nesse setor privado que varnashram vai se desenvolver, porque dentro dos templos, quase por definição cultural, os devotos que ai residem (não os jovens que estão aprendendo) os que já têm certa idade, certa maturidade, eles serão quase sempre brahmanas. Então, como pode um templo desenvolver varnashram se ele tem principalmente brahmanas? Os brahmanas podem guiar uma sociedade varnashram, mas não é cultura védica que os brahmanas sejam os chefes no dia-a-dia dos outros varnas. Eles são mais professores, gurus, sacerdotes, provêem serviços tais como os festivais religiosos, adoração às Deidades, mas não administram os outros varnas, muito pelo contrário. Por isso o conceito de que de um templo vai surgir uma sociedade varnashram não é correto. Os brahmanas, sannyasis ou pregadores têm que sempre guiar e inspirar (como eu estou fazendo agora tentando incentivar varnashram dentro da Iskcon falando com vocês), mas a parte prática de realmente desenvolver estrutura, vocações e ocupações, acho que ela é feita no setor privado da Iskcon, ou seja, o setor das pessoas trabalhando com suas respectivas propriedades que pertencem à Krishna, mas que elas estão administrando. Essa é a minha experiência prática nos EUA em comunidades muito desenvolvidas – a de que no setor privado, entre devotos e famílias, é onde vamos desenvolver varnashram.

Numa sociedade védica um brahmacari era muito jovem. Temos no movimento devotos que entram já com 18, 20 anos e são brahmacaris – isso é perfeito. Mas desenvolvendo uma sociedade, normalmente um devoto começa seu aprendizado como brahmacari aos 5 anos. Srila Prabhupada disse que os pais são responsáveis por manter as escolas – isso significa que pais e mães são responsáveis pelos brahmacaris no sentido tradicional (jovens estudantes), sem dúvida são responsáveis por si mesmos, e até dão caridade para os sannyasis. Prabhupada disse que a coisa boa da cultura védica é que um ashram (grhasta) mantém todo o mundo, porque vanaprastas e sannyasis devem ter poucas necessidades. É por isso que os grhastas, num sentido, são os elementos chave para o desenvolvimento de varnashram. Os ksatriyas são grhastas, os vaisyas são grhastas, os sudras normalmente são grhastas e talvez a maioria dos brahmanas seja grhasta. Brahmacari normalmente significa estudante, que está fazendo um serviço, pregando e tal. E podemos observar que os brahmacaris mais avançados permanecem nessa ordem e a maioria, que também são devotos avançados, se casam. Então, para desenvolver varnashram temos que desenvolver famílias, pais e mães muito fortes. E uma vez que os grhastas normalmente têm suas próprias casas, apartamentos ou terras, eu vejo que é no setor privado da Iskcon que o varnashram vai surgir. Os templos também fazem parte de varnashram, mas a parte que está faltando, inclusive a econômica, para completar varnashram, os outros varnas, (já temos os brahmanas pobres, nesse sentido temos cultura védica autêntica [risos], que estão se associando sempre com Brgu Muni, o levou a maldição!) depende das famílias, dos grhastas.

Quando éramos muito jovens e todo mundo era brahmacari e brahmacarini, casar-se era quase como uma queda espiritual. Muitas vezes foi uma queda, uma vez que a vida familiar ficou tão estigmatizada que a pessoa tentava segurar a barra até o último fôlego, e muitas vezes os casamentos aconteceram sob condições meio perturbadas. Mas lembrando uma coisa que eu li no Bhagavatam muitos anos atrás e que me surpreendeu muito: “Assim como os brahmanas são a cabeça da forma universal de Krishna, os ksatriyas os braços, os vaisyas o estômago e os sudras as pernas; os sannyasis são a cabeça da virat-rupa, os vanaprastas os braços, os grhastas o estômago e os brahmacaris as pernas”. Quando eu li isso eu pensei – ‘Como é possível colocar grhastas acima de brahmacaris?’ Eu aceitei porque estava lá no Bhagavatam, mas não podia conceber.

Na realidade, o que podemos observar é que muitos devotos que eram bons brahmacaris e brahmacarinis depois se casaram, e a idéia de que qualquer devoto no templo é melhor que qualquer devoto fora do templo é, para mim, simplesmente uma ignorância. Mas houve uma atitude assim. Pode ser que um brahmacari ou uma brahmacarini forte no templo, daqui a alguns anos vai casar e fazer as mesmas coisas que um grhasta fora está fazendo. Isto significa que o grhasta que está fora já passou por esta fase e está indo para a próxima, amadurecendo, vivendo e aprendendo... E tem esses casos famosos de um devoto de vinte anos de movimento vir para um templo e o “bhakta não sei quem” tratá-lo como um elemento um pouco inferior. Não quero desincentivar a vida de brahmacari (que é maravilhosa), porém existe um sentido no qual um brahmacari que se casa está progredindo dentro do sistema védico. Existe outro sentido no qual um brahmacari que não se casa também está progredindo e nós não queremos esquecer isto, mas sermos equilibrados. Existe pelo menos um sentido (e tão importante que aparece no Bhagavatam, embora tenha sido um pouco perdido na Iskcon), no qual um brahmacari ou brahmacarini que se casa está progredindo dentro do sistema védico e deva ser honrado, assim como, por exemplo, quando um devoto toma sannyasi existe muita alegria, festa, parabéns e tal. E sem dar esta honra ao grhasta ashram, como será possível que os grhastas fiquem inspirados? Uma pessoa que fica desprestigiada dentro da sociedade também não se importa em se comportar bem. A palavra “marginais” quer dizer que exatamente por serem colocados à margem da sociedade, eles não são muito preocupados com o próprio comportamento. Uma vez que a maioria dos membros da Iskcon são grhastas, se temos até sutilmente uma atitude que os marginaliza, o que podemos esperar?

Quando eu me casei, em 1970, esse casamento foi percebido e aceito por todos como um grande festival – todos estavam muito felizes. Eu lembro que nessa época no Movimento eu tinha a sensação de que amadurecia, que ia para o próximo ashram. E foi um progresso porque dali eu fui para sannyasi um ano depois (risos). Hoje em dia seria contra a lei da Iskcon, mas também posso dizer que um ponto fraco nesse casamento foi que eu quase não recebi conselho, não houve nenhum processo de treinamento, nada. Eu era um brahmacari super empolgado e alegre, não tinha nenhum problema, não estava agitado, mas naquela época havia a consciência de casamento. Era uma coisa tão importante na minha vida e, praticamente, não houve treinamento. Não foi culpa de ninguém, todo mundo era sincero e tinha boa vontade, mas não tínhamos a maturidade necessária.

Como Prabhupada disse, as crianças dos grhastas são a esperança do futuro e nós estamos vendo que os pais têm muito a ver com a qualidade da consciência de Krishna das crianças. Então, quando dois devotos se casam, eles se tornam os guardiões da Iskcon futura, da sociedade futura. O futuro da Iskcon está nas mãos dos pais e mães e por isso ele tem um interesse enorme em fazer tudo para treinar bons pais e mães, esposos e esposas. Mesmo um bom pai ou uma boa mãe, quando estão separados, quando não podem conviver juntos, sua capacidade de cuidar dos filhos é muito reduzida, limitada. Estou vendo que, se queremos falar de varnashram, temos que falar de casamento, de boas famílias, de treinar seriamente pais, mães, um homem para ser um bom esposo, uma mulher para ser uma boa esposa. Também precisamos de escolas para treinar os devotos jovens em como manter-se na vida. Vocês conhecem muito bem o processo de “se virar” relacionado àquela lamentação famosíssima: “Eu dei tantos anos para a Iskcon e de repente, num belo dia, eu não podia mais morar no templo, tive que me virar e não sabia fazer nada além de vender incensos (antes da incenso-yuga vendíamos pirulitos!).

Finalizando, nós temos que ter maturidade como sociedade. Já deveríamos saber que, mesmo os devotos do templo, a maioria algum dia vai ter que trabalhar. E ter processos, programas, transições para que os devotos do templo já comecem a se preparar de muitas maneiras para a próxima fase de suas vidas – tudo isso é varnashram. E tomando conhecimento das necessidades, tendo uma visão da Iskcon do futuro como uma sociedade que inclui todo o mundo, eu acho que vocês mesmos vão ter boas idéias.

Pergunta: Muitas empresas karmis têm programas para prevenir a sobrevivência de seus empregados após uma possível demissão destes. A Iskcon poderia organizar algo assim?

Resposta: Estamos vendo na prática que os próprios grhastas que já têm profissão, de certa forma eles mesmos têm que assumir essa responsabilidade de treinar os devotos. Por isso a idéia de “interno” ou externo” é um pouco anacrônica, cafona (como se diz aqui no Brasil). Nós temos que integrar uma sociedade onde todo mundo é interno, todos estão dentro da Iskcon; alguns têm profissões, participam, ajudam, e todos trabalham juntos para criar uma sociedade consciente de Krishna muito forte.

Muito obrigado. Todas as glórias a Srila Prabhupada.